13/07/2026
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Compulsão: entre o excesso e o sofrimento psíquico

Compulsão: entre o excesso e o sofrimento psíquico

A compulsão tem se tornado um sintoma frequente nos diagnósticos que levam mais pessoas à clínica psicanalítica. Entre os comportamentos mais comuns estão a compulsão alimentar, por compras e pelo uso de redes sociais. A compulsão é uma forma de nomear atos que ultrapassam os limites socialmente aceitos.

Esses diagnósticos podem ajudar na compreensão e no cuidado de pessoas em sofrimento, mas exigem acompanhamento profissional, o que muitas vezes não acontece. A tentativa de classificar e controlar o excesso tem gerado, em muitos indivíduos, novas formas de angústia, culpa e esgotamento psíquico. Cresce a procura por atendimento psicológico, não apenas para eliminar sintomas, mas para entender o que se manifesta como sofrimento subjetivo.

Na psicanálise, a compulsão vai além de um comportamento repetitivo ou descontrolado. Acredita-se que certos atos repetidos têm relação com conflitos inconscientes. Em Além do princípio do prazer (1920), Freud formulou a ideia da compulsão à repetição. Ele aponta que o sujeito pode retornar continuamente a experiências que provocam sofrimento. A repetição não é apenas uma falha de autocontrole, mas uma tentativa do psiquismo de elaborar algo que não tem representação simbólica.

Na cultura atual, a experiência subjetiva é frequentemente tratada como questão de desempenho e controle individual. O sujeito interpreta seus excessos como fracassos pessoais, com frases como “não consigo controlar minha alimentação” ou “não consigo me desconectar”. Isso aumenta a culpa e a cobrança interna, fortalecendo os ciclos compulsivos. O sujeito é pressionado a se autocontrolar, enquanto a sociedade o incentiva ao consumo, à produtividade e à busca de satisfação.

O sintoma não deve ser visto apenas como algo a ser eliminado, mas como uma formação com função na economia psíquica. Para Lacan, o sujeito é marcado pela linguagem e pelo desejo, não podendo ser reduzido a comportamentos observáveis. A compulsão seria uma tentativa de lidar com uma falta estrutural e com a angústia diante do vazio. A sociedade atual oferece muitos objetos de consumo, mas produz sujeitos confrontados com a sensação de insuficiência.

O discurso social promete satisfação plena pelo excesso, mas o resultado é o esgotamento. Lacan descreveu o discurso capitalista como um estímulo à busca incessante por novos objetos de satisfação, sem resolver o desejo. O aumento da procura por atendimento psicológico revela uma época marcada pelo excesso. Muitas pessoas chegam à clínica querendo entender por que seus atos repetitivos não trazem a satisfação esperada. O sofrimento se torna um convite à investigação sobre si mesmo, e a psicanálise propõe escutar o sujeito para compreender o sentido do sintoma em sua história e relação com o desejo.