Todo mundo sabe que correr não é fácil. Mas ficar parado com a bunda no sofá também não é. A diferença é que a conta do sedentarismo costuma chegar depois. E ela anda chegando cada vez mais cedo.
Tem jovem infartando antes dos 30. Tem quarentão que acorda reclamando da coluna como se tivesse o dobro da idade. Tem joelho que já não aguenta subir uma escada porque a musculatura foi embora faz tempo. Sem falar na diabetes, hipertensão, obesidade e tantos outros problemas que aparecem quando o corpo passa tempo demais sem sair do lugar.
Neste domingo, enquanto milhares de pessoas cruzavam a linha de chegada da Maratona de Campo Grande, o Lado B resolveu fazer uma pergunta simples para quem acabou de correr quilômetros e quilômetros: qual conselho você daria para quem ainda não conseguiu sair do sofá?
Porque, convenhamos, a corrida talvez seja o esporte mais democrático que existe. Não precisa de mensalidade, nem de quadra, nem de equipamento caro. Quase todo mundo tem uma rua, uma praça ou até um quintal perto de casa. E, se correr parece impossível hoje, caminhar já é um começo. Foi isso que os corredores responderam.
Sandoval Junior, de 62 anos, tinha acabado de completar os 42 quilômetros. A maratona de Campo Grande foi a sexta dele só neste ano. De onde vem tanta disposição? “Essa é a minha sexta maratona do ano”, diz, quase sem demonstrar cansaço. Na opinião dele, o segredo cabe em poucas palavras: coragem, persistência, disciplina e fé em Deus.
Para quem ainda nem sonha em correr, ele garante que ninguém precisa começar fazendo cinco quilômetros. “Só você começar a caminhar primeiro, vai caminhar na rua, depois você caminha de um poste do outro. Tudo é condicionamento.” E, se nem isso parece possível, ele diminui ainda mais a meta. “Caminha na sala, caminha de uma porta na outra, depois você tá descendo escada e indo para rua.” Quando perguntado sobre os idosos que dizem não conseguir começar, ele responde sem rodeios: “Não tem desculpa.” E encerra com uma piada: “Conhece a mulher do Severino? Então ‘se vira’.”
O contador Luiz Carlos Garaveiga, de 33 anos, completou os 21 quilômetros para acompanhar uma amiga que estreava na meia maratona. Para ele, a corrida exige renúncias, mas entrega muito mais do que condicionamento físico. “É treino, muita dedicação. Você abdica de algumas coisas da sua vida. A verdadeira essência da corrida você descobre… é algo surreal. Só quem corre sabe.” Segundo Luiz, quem nunca corre costuma julgar. “Você conversa e a pessoa te julga muito, mas você começa a correr e vira um vício.”
Personal trainer e dono de uma assessoria de corrida, Ricardo Ferreira, de 33 anos, já completou duas maratonas neste ano. Para ele, o maior desafio não é correr. É sair de casa. “Coloca uma camiseta, começa caminhando, se divertindo e pensando em ser uma nova pessoa.” Ele acredita que muita gente desiste antes mesmo de experimentar. “Vem para assessoria que a gente também mostra como correr é divertido.” Na hora de convencer quem ainda está no sofá, Ricardo resume tudo em uma frase. “Levantar de casa e mostrar pro mundo que você pode ser uma pessoa diferente.” E deixa um conselho: “Toma um café preto, se levanta e pensa na pessoa que você pode se tornar junto com a gente.”
No fim das contas, talvez o conselho mais simples tenha vindo de Matheus Cabral. Ele também cruzou os 42 quilômetros, mas garante que ninguém começa pensando nessa distância. “Eu acho que é não desistir no primeiro dia. O primeiro dia é o pior de todos, mas depois vem o segundo dia e, quando você vê, você pega gosto pela coisa.” E deixa um lembrete para quem acha que maratona é coisa de outro mundo: “De início a corrida é coisa de maluco. Quem vai botar na cabeça que vai correr 42 km?”
