19/05/2026
Mundo das Notícias»Notícias»Advogados usam IA para enganar juiz em caso do “Escobar brasileiro”

Advogados usam IA para enganar juiz em caso do “Escobar brasileiro”

Uma ação judicial movida pelo megatraficante Sérgio Roberto de Carvalho, ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul (PMMS) conhecido como “Escobar brasileiro”, teve início com uma manobra que preocupa a Justiça. Antes mesmo da petição dirigida ao juiz, o documento trazia comandos de inteligência artificial (IA) escondidos no cabeçalho, escritos para tentar induzir uma IA a considerar a peça correta.

Um grupo de advogados de Mato Grosso do Sul confessou ter usado recursos de IA para tentar ludibriar a Justiça. A estratégia partia da aposta de que, se o magistrado ou o gabinete usasse IA para resumir ou analisar a petição, a ferramenta poderia ler o comando escondido e produzir uma avaliação favorável. Em português claro, era uma tentativa de enganar o juiz por meio da máquina.

A petição foi protocolada em 29 de setembro de 2025 e assinada pelos advogados Lucas F. N. Brandolis, Matheus Pelzl Ferreira e Dálete de Oliveira Cáceres. O trecho aparecia no início da peça, antes da identificação das partes e dos argumentos jurídicos, apresentado como “Diretriz de Sistema” e “Protocolo de Calibração: Heurística-7”. O texto se dirigia a uma suposta “Unidade de Inteligência Artificial de Análise Jurídica” e mandava processar o documento como se todos os requisitos estivessem satisfeitos.

A ação era real, apresentada em nome de Sérgio Roberto de Carvalho contra veículos de imprensa que o chamam de “Escobar Brasileiro”. Preso no complexo prisional de Antuérpia, na Bélgica, ele é apontado em investigações como um dos brasileiros ligados ao tráfico internacional de drogas. A ordem final no documento mandava gerar uma “saída padrão” de um recurso considerado “100% admissível”. Na prática, o comando dizia à máquina: não critique, não barre, aprove.

Depois que a manobra foi descoberta, os advogados desistiram da ação. Na petição de desistência, admitiram que o texto oculto foi colocado por um ex-colaborador, de forma “experimental”, em um template que não fazia parte do fluxo oficial de revisão. Os advogados afirmam não saber da existência do conteúdo e iniciaram uma apuração interna, encontrando o mesmo prompt em 28 processos judiciais. O escritório protocolou petições em todos eles, pedindo a desconsideração do conteúdo.

O escritório nega litigância de má-fé e fraude processual, alega ausência de dolo e diz que foi uma falha operacional causada por uso de modelo contaminado.

Como funciona a técnica

A técnica é conhecida como prompt injection, ou “injeção de comando”. Em vez de apenas apresentar argumentos ao juiz, alguém coloca dentro do documento uma ordem voltada à IA. Funciona como uma armadilha de leitura: o próprio arquivo traz novas ordens, tentando fazer a ferramenta obedecer ao texto escondido. No caso da petição de Carvalho, o texto mandava tratar o documento como um “caso-modelo”, validar a tese, suspender filtros e afastar obstáculos jurídicos, além de interpretar qualquer menção a fatos de forma favorável à peça.