Uma pesquisa identificou mudanças nas fases reprodutivas do baru, árvore nativa do Cerrado, em Mato Grosso do Sul. O estudo comparou levantamentos realizados em 2022 e 2025 e observou uma maior proporção de árvores em início de floração e uma menor presença de exemplares com flores abertas e frutos.
Os pesquisadores alertam que ainda não é possível afirmar se essas alterações representam uma mudança duradoura no comportamento da espécie. A continuidade do monitoramento nos próximos anos será necessária para verificar se os resultados indicam uma tendência ou apenas uma variação natural entre diferentes períodos de observação.
Um dos diferenciais da pesquisa é a participação direta das comunidades extrativistas. Por meio da metodologia de ciência cidadã, famílias que vivem em áreas de coleta registram dados sobre floração, frutificação, clima e localização dos baruzeiros. As informações são coletadas pela plataforma KoboToolbox e integram uma base de dados sobre o Cerrado.
Os dados alimentam o Mapa Interativo da Ciência Cidadã do Baru, desenvolvido pela Ecoa (Ecologia e Ação). A ferramenta reúne informações sobre áreas de coleta da castanha, biodiversidade, clima e características do Cerrado. A atualização foi produzida ao longo de seis meses de monitoramento, com a participação de oito comunidades envolvidas no extrativismo do baru em Mato Grosso do Sul.
Além de subsidiar pesquisas científicas, o mapa auxilia as comunidades no planejamento da safra e na organização da atividade extrativista. A ferramenta também contribui para a rastreabilidade da cadeia produtiva, permitindo identificar a origem da castanha.
O mapa foi desenvolvido no âmbito do projeto “Superalimento de castanha de baru das famílias locais do Cerrado brasileiro para consumidores dinamarqueses”, realizado pela Ecoa em parceria com a organização dinamarquesa Forests of the World, com financiamento da Danida. A iniciativa também conta com a participação do CEPPEC (Centro de Produção, Pesquisa e Capacitação do Cerrado), de Nioaque, e da organização dinamarquesa NØDDEBAZZAREN.
O estudo comparou 304 observações registradas em 2022 com 49 registros realizados em 2025. Segundo Nathalia Ziolkowski, diretora-presidenta da Ecoa e coordenadora da iniciativa, os novos dados se somam aos levantamentos anteriores. “Eles ajudam a construir uma base histórica que permitirá compreender melhor as variações entre safras e suas possíveis relações com fatores ambientais e climáticos”, afirma.
Em 2022, 54,3% das observações correspondiam a árvores com botões florais. Em 2025, esse percentual passou para 74,5%. A proporção de árvores com flores abertas caiu de 6,9% para 2,1%, enquanto a de árvores com frutos diminuiu de 29,3% para 14,9%. A presença de frutos caídos no solo passou de 9,9% para 8,5%.
A distribuição espacial dos registros permaneceu praticamente a mesma entre os dois levantamentos. As maiores concentrações de ocorrências continuam na região formada pelos municípios de Anastácio, Nioaque e Dois Irmãos do Buriti. O estudo concluiu que o núcleo principal de ocorrência da espécie permaneceu estável entre 2022 e 2025.
O Mapa Interativo da Ciência Cidadã do Baru está disponível para consulta online e permanece em atualização contínua.
