17/08/2026
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Entre a mudança irritante e a certeza absurda

Entre a mudança irritante e a certeza absurda

Em artigo publicado no Campo Grande News em 17 de agosto de 2026, a psicóloga Cristiane Lang analisa a relação entre a resistência às mudanças e o problema das certezas absolutas. O texto parte de uma frase atribuída a Voltaire para discutir como a convicção excessiva pode limitar a compreensão do mundo.

Lang afirma que a mudança incomoda porque desmonta hábitos e rotinas que dão sensação de segurança. O ser humano, segundo a autora, tende a buscar conforto nas repetições, nas mesmas opiniões e nos mesmos julgamentos. A mudança, no entanto, chega sem pedir licença, mexe com estruturas estabelecidas e abre espaços que estavam fechados há tempo.

O problema, para a psicóloga, não está no incômodo causado pelas transformações. O risco começa quando esse desconforto vira uma trincheira e a pessoa passa a defender suas convicções como um soldado cansado. A certeza absoluta é descrita como uma arrogância silenciosa, que não necessariamente grita, mas carrega uma convicção perigosa: a de que já se compreendeu o mundo por inteiro.

No texto, a autora observa que quem tem certeza de tudo não escuta, apenas espera a vez de falar. Não conversa, corrige. Não encontra pessoas, classifica. Há também uma crítica à ideia de que a experiência pessoal seja suficiente para medir todas as outras. Nenhuma dor individual, nenhum amor vivido, nenhuma fé alcança a totalidade dos mistérios do mundo, afirma.

A psicóloga destaca que a vida é especialista em desmentir convicções. O tempo passa e as certezas envelhecem, viram lembranças constrangedoras ou, em alguns casos, transformam-se em sabedoria quando há coragem de abandoná-las. Mudar de ideia, segundo ela, exige uma coragem que raramente recebe aplausos, mas que tem grandeza silenciosa.

Lang compara a rigidez humana com a natureza. As árvores perdem folhas sem considerar o outono uma humilhação, os rios mudam de curso diante de obstáculos e o mar nunca repete a mesma onda. Só o ser humano insiste em tratar a transformação como fracasso, talvez porque mudar lembre a nossa própria incompletude.

A autora conclui que a maturidade não consiste em acumular certezas, mas em aprender a conviver com perguntas. A dúvida fértil, que faz perguntas e mantém as janelas abertas, é apresentada como alternativa à rigidez. Entre o desconforto de mudar e a arrogância da certeza absoluta, o texto sugere que é mais sábio escolher o desconforto, que mantém as pessoas vivas e atentas ao mistério de existir.

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