O debate sobre o mercado de trabalho brasileiro frequentemente se concentra nos dados da taxa de desemprego aberto, atualmente nas suas mínimas históricas, deixando de lado uma dimensão estrutural mais profunda: o desemprego disfarçado. A evidência recente aponta para um fenômeno complexo, relacionado à transformação da estrutura produtiva do país. Em economias como a brasileira, o avanço de formas ocupacionais mais frágeis reflete mudanças na capacidade de gerar empregos estáveis e produtivos.
O desemprego disfarçado é definido como uma situação em que trabalhadores permanecem formalmente ocupados, mas inseridos em relações de trabalho com baixa estabilidade, alta rotatividade e reduzida proteção contratual. No Brasil, esse processo se manifesta pela ampliação dos chamados empregos atípicos, vínculos que se afastam do contrato celetista tradicional por tempo indeterminado. Trata-se de uma deterioração qualitativa do mercado de trabalho.
Em 2006, os vínculos atípicos representavam cerca de 26,8% do total do emprego formal. Entre 2006 e 2012, houve uma redução consistente desse indicador, que atingiu aproximadamente 23% em 2012, o menor nível da série analisada. Esse movimento esteve associado ao dinamismo econômico do período, com expansão do investimento, crescimento da construção civil e valorização do salário mínimo.
A partir de 2014, a trajetória se alterou. A recessão de 2014-2016 produziu uma deterioração das condições do mercado de trabalho. A participação dos vínculos atípicos voltou a crescer, alcançando 24,8% em 2017. Nesse ambiente, a reforma trabalhista de 2017 ampliou modalidades flexíveis de contratação. Entre 2017 e 2021, a participação dos vínculos atípicos permaneceu elevada, oscilando próxima de 25% do total do emprego formal.
O avanço do desemprego disfarçado reflete a perda de complexidade produtiva da economia brasileira, marcada pela redução da participação da indústria de transformação. Quando a estrutura produtiva perde densidade tecnológica, reduz-se a capacidade de gerar empregos estáveis e de maior valor agregado. Sem uma estratégia de reindustrialização, o desemprego disfarçado tende a permanecer como uma expressão da dualidade estrutural brasileira.
(*) José Luís Oreiro é professor associado do Departamento de Economia da Universidade de Brasília e Stefan Wilson D’Amato é doutor em Economia Aplicada pelo CEDEPLAR/UFMG.
