Após a captura de Nicolás Maduro em Caracas pela polícia dos Estados Unidos, o Departamento de Estado americano divulgou uma foto do então presidente Donald Trump com a frase: “Este é o nosso hemisfério”. Essa declaração refletia uma nova abordagem dos EUA em relação à América Latina, que reforçaria o domínio americano na região, especialmente sobre os recursos naturais, em particular o petróleo.
A relação comercial entre o Brasil e a Venezuela foi prejudicada por diversos fatores, como a falta de dólares e o aumento da insegurança jurídica, que afetam a economia da Venezuela e a confiança das empresas. Além disso, Trump assinou um decreto que impede que tribunais confisquem receitas do petróleo venezuelano, indicando que esse recurso é estratégico para os interesses americanos.
Os EUA têm se concentrado em garantir o controle sobre o petróleo, especialmente considerando que a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, embora sua produção atual esteja aquém do potencial. Essa situação destaca a disputa emergente entre os EUA e a China na América Latina, uma região que concentra grandes reservas de petróleo e gás.
Nos últimos anos, a China tem adquirido petróleo sul-americano em volume crescente, com o Brasil e a Venezuela representando cerca de 10% de todas as suas importações. As empresas chinesas, como CNOOC, CNPC e Sinopec, têm se associado a empresas locais, como a Petrobras, para explorar reservas estratégicas, especialmente as do pré-sal brasileiro.
A competição por petróleo não é apenas estratégica, mas também econômica; as duas maiores economias do mundo, os EUA e a China, consomem cerca de 35% do petróleo global. O aumento da presença chinesa na América Latina tem sido descrito como “silencioso”, com investimentos que muitas vezes passam despercebidos nas estatísticas oficiais, uma vez que são feitos em parceria com empresas de outros países.
Um estudo da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) estimou que entre 2020 e 2024, os investimentos em petróleo e gás na região somarão US$ 47,5 bilhões, com apenas US$ 1,3 bilhão atribuído à China. No entanto, a coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Mackenzie, Fernanda Brandão, destacou que, apesar da predominância histórica dos EUA como investidores na região, a China tem se mostrado cada vez mais ativa não apenas no setor de petróleo, mas também em energia renovável, mineração e infraestrutura.
Marcelo de Assis, consultor da MA2Energy, afirmou que, apesar da ofensiva dos EUA, a China não deve se afastar do petróleo sul-americano, pois ainda precisa dessa fonte de energia. A quantidade de petróleo que a Venezuela exporta para a China, entre 400 mil e 450 mil barris por dia, pode ser facilmente suprida por outros mercados, principalmente em um período de preços baixos.
Por outro lado, as expectativas para o mercado energético na Venezuela são desafiadoras. Especialistas afirmam que são necessários investimentos significativos, estimados em pelo menos R$ 100 bilhões, para restaurar a capacidade de produção do país. A instabilidade política e a precariedade das condições econômicas são preocupações que afastam investidores.
Apesar destas dificuldades, o Brasil e outros países da América do Sul, como Suriname e Guiana, estão se tornando cada vez mais relevantes em termos de investimentos energéticos, e tanto empresas americanas quanto chinesas continuam a mostrar interesse em explorar e desenvolver esses novos campos de petróleo. Os leilões recentes no Brasil mostram que as duas potências estão na disputa por áreas estratégicas, que podem moldar o futuro do cenário energético na região.