“Eu estou no Caps e não sou bicho”. A frase é de Hilda Basília Franco, de 52 anos. Diagnosticada com síndrome do pânico e bipolaridade, ela enfrenta o desemprego e o preconceito. Para lidar com a situação, passou a ensinar kokedama, uma técnica japonesa de plantação, a outros pacientes do Caps (Centro de Atenção Psicossocial).
Hilda trabalhava como diarista, mas perdeu as oportunidades após um episódio traumático. Hoje, faz limpezas em apenas uma casa. Ela afirma que, ao buscar trabalho, ouvia promessas de contato que nunca eram cumpridas. “Tem gente que olha para mim e fala: Caps? Então você não tem como trabalhar na casa dos outros”, disse.
Ela aprendeu a fazer kokedama em um mês, com a ajuda da internet. A ideia de dar aulas veio das psicólogas do Caps, por meio do projeto Viver é Arte. “Peguei no YouTube e fui tentar”, conta. Para Hilda, mexer com plantas ajuda a distrair e acalmar. “Nunca pensei que fosse ensinar as pessoas, é legal”, afirmou.
A artesã pede que as pessoas entendam a necessidade do tratamento psicológico. “A gente faz tratamento não é porque é doido, é porque é necessário”, disse. Ela lamenta que muitos empregadores não aceitem pacientes do Caps, alegando que o tratamento toma muito tempo.
A psicóloga Letícia de Oliveira Rodrigues explica que o trabalho é uma forma de as pessoas se sentirem realizadas. “As pessoas que fazem tratamento enfrentam muita dificuldade de se manter no mercado de trabalho”, afirmou. Ela destaca que o projeto gera renda e inclusão.
Segundo Letícia, a produção artesanal quebra o preconceito. “O sujeito se coloca nesse produto e passa a ocupar o meio social”, disse. Ela lembra que, no passado, pessoas com transtornos mentais eram retiradas da sociedade e internadas em manicômios.
Outros artistas do projeto
Astrogildo Diniz, de 67 anos, é bolsista da Fiocruz e artesão. Ele faz cachecol, papel machê e pinta pano de prato. “Se eu fico parado, é pior para mim”, disse. Ele conta que adoeceu e foi para o Caps, onde se aposentou.
Brenon Vinicius da Cunha, de 32 anos, é desenhista. Ele faz aerografia, uma pintura com caneta. “Participei do projeto Viver é Arte. Aqui, as pessoas podem ser produtivas também”, afirmou.
A psicóloga Larissa Sales Rocha diz que o grupo Viver é Arte tem dois anos. Ela viu a necessidade de geração de renda entre os pacientes. “Esse título de ‘do que você trabalha’ também te define”, explicou. Para ela, o trabalho é um condutor de saúde mental e ajuda a combater o preconceito contra quem tem algum problema psicológico.
