Brasil deve reduzir produção de carne bovina após restrições da China
O Brasil, maior exportador de carne bovina do mundo, enfrenta um novo desafio com a decisão da China de impor cotas às importações. Esse movimento pode forçar os frigoríficos a diminuir a produção ao longo deste ano, em meio a uma já esperada redução na oferta de gado.
Tradicionalmente, o Brasil vinha exportando grandes quantidades de carne para a China. No entanto, o novo teto imposto pelo governo chinês é inferior ao que o país sul-americano enviava nos últimos anos. Isso levou diversas instituições financeiras e consultorias a reavaliar suas projeções para a indústria, apontando uma queda significativa na produção.
O analista Fernando Iglesias, da consultoria Safras & Mercado, destaca que a imposição das cotas pode causar uma redução de 3,6% nos abates de gado até 2025. Anteriormente, antes do anúncio da nova regra, a expectativa era de uma queda de 2,8% nos abates. Com a combinação da limitação da oferta de gado e a necessidade de se recompor os rebanhos, a situação se torna ainda mais crítica e os custos para os frigoríficos podem subir.
Os preços elevados da carne bovina já estão afetando o consumo global. A procura pode se deslocar para outros mercados, mas a diminuição da produção brasileira e a oferta mais restrita de gado podem dificultar uma redução significativa nos preços. A demanda permanece forte em locais como os Estados Unidos, mesmo que os consumidores brasileiros estejam buscando alternativas mais econômicas devido aos altos preços.
Wagner Yanaguizawa, analista do Rabobank, observa que a alta nos preços da matéria-prima está levando as empresas do setor a depender mais das exportações, tentando compensar a queda nas vendas internas. Contudo, se as cotas forem respeitadas, as exportações podem encontrar dificuldades, especialmente no final do ano, resultando em revisões para baixo nas projeções de produção.
A dependência do mercado chinês é uma preocupação para o Brasil, visto que esse país representa quase 50% das exportações de carne bovina. Embora haja esforços para diversificar os destinos das exportações, o acesso a mercados importantes, como o Japão, ainda está bloqueado por questões sanitárias.
Além das cotas, o consumo de carne na China está em desaceleração, marcando uma nova fase após anos de crescimento contínuo. Problemas econômicos têm levado os consumidores a cortarem gastos com alimentos e a reduzir as refeições fora de casa, resultando em uma previsão de queda no consumo de carne bovina no país. Nos primeiros 11 meses do ano, as importações chinesas de carne bovina caíram ligeiramente em relação ao ano anterior.
Após o anúncio das restrições, as ações da Minerva sofreram uma queda superior a 7%, enquanto a JBS, que opera em outras regiões além da América do Sul, teve uma queda de cerca de 4%. Outros países da América do Sul, como Argentina e Uruguai, receberam cotas menos severas, o que pode permitir que parte da carne brasileira seja enviada a esses mercados e ampliem a oferta interna para a China. Apesar disso, espera-se que a produção brasileira de carne bovina tenha uma diminuição de 2% neste ano.
As exportações para outros mercados podem resultar em margens de lucro menores, uma vez que a China costuma pagar mais pelos cortes de carne que o Brasil oferece. Em resumo, o setor de carne bovina no Brasil se encontra em um período desafiador, com a necessidade de se adaptar a novas realidades econômicas e de mercado.