Às 3h30 desta quarta-feira (17), a rotina parecia a mesma na garagem da Viação Campo Grande, na Avenida Gury Marques. Os ônibus já estavam lavados, o setor administrativo preparava os itinerários e os primeiros veículos que buscavam funcionários nos bairros chegavam cheios, em intervalos de cerca de 30 minutos. Por trás da operação normal, o clima era de incerteza.
Essa madrugada marcou as primeiras 24 horas da intervenção decretada pela Prefeitura de Campo Grande no transporte coletivo urbano. Enquanto a cidade ainda dormia, motoristas e demais trabalhadores desciam dos ônibus, formavam fila, pegavam os itinerários e seguiam para o refeitório, onde havia café, leite, chá e pão com margarina antes do início da jornada.
Foi nesse ambiente que Demétrio Freitas, presidente do STTCU-CG (Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Coletivo Urbano de Campo Grande), conversou com os trabalhadores. A missão era simples e urgente: tentar acalmar uma categoria que, segundo ele, acordou sem saber exatamente quem manda agora, como fica a rotina e, principalmente, se o salário continuará caindo em dia.
“Quando acontece um caso desse, que a gente jamais imaginava que um dia podia acontecer, houve uma preocupação muito grande por parte dos trabalhadores. Insegurança. Não sabem o que vai acontecer daqui para frente, se realmente vão receber seus vencimentos em dia”, afirmou Demétrio.
A intervenção retirou temporariamente do Consórcio Guaicurus o poder de gestão sobre o sistema de ônibus da Capital. A concessão continua formalmente com o grupo, mas a administração operacional, financeira e administrativa passou para uma equipe interventora nomeada pela Prefeitura. A medida pode durar até 180 dias.
Para os passageiros, a equipe interventora já informou que não deve haver mudanças imediatas em linhas, horários ou frota. Para quem está atrás do volante, no entanto, a preocupação é menos abstrata: o vale salarial vence na sexta-feira (19).
“Pelo que eu recebi e senti aqui, a principal dúvida é a questão de salário, receber em dia. Outros assuntos, como negociações, vão ficar mais para frente. O que a gente quer é que o pessoal da intervenção cumpra o combinado que a gente tinha com o Consórcio Guaicurus”, disse o presidente do sindicato.
Segundo Demétrio, o sindicato ainda não teve contato direto com o grupo interventor, mas já tem reunião marcada para sexta-feira, às 9h. A data coincide justamente com o pagamento do vale aos trabalhadores. “A expectativa é que se cumpra, que se pague. Já está bem perto. A gente vai acompanhar. Sexta-feira é o dia do vale, então já teremos uma noção se isso vai acontecer normalmente ou não”, afirmou.
Reservadamente, trabalhadores ouvidos pela reportagem disseram que a intervenção só terá chance de dar certo se for conduzida por pessoas técnicas, com conhecimento de transporte, operação e finanças. A principal cobrança é que o processo não vire disputa política dentro de um sistema que, na avaliação deles, já vinha acumulando problemas há muito tempo.
Demétrio evita cravar avaliação sobre a equipe escolhida. Disse que ainda não conhece os interventores, mas afirmou esperar que o perfil técnico anunciado pela Prefeitura se confirme na prática. “Segundo a informação, eles são técnicos mesmo. O problema já vem se estendendo há muito tempo. Que seja bem-vindo, se for para ajudar. A gente não sabe o que vai acontecer nesses 180 dias, mas a expectativa é que se resolva, seja com a devolução ao consórcio, seja com outra empresa. O importante é resolver o problema”, afirmou.
Apesar da apreensão, a operação na garagem seguiu sem alteração visível. Os trabalhadores não falaram oficialmente com a imprensa. A orientação é que qualquer posicionamento seja feito pelo sindicato. Por volta das 4h, a primeira leva de ônibus começou a deixar a garagem.
A intervenção foi determinada após relatório de comissão especial apontar falhas na prestação do serviço, como descumprimento de horários, problemas de manutenção, redução de frota em circulação, aumento de reprovações em inspeções técnicas e risco à segurança dos passageiros. O decreto também foi fundamentado em decisão judicial.
Na terça-feira (16), o interventor-geral Alexandro Adriano Lisandro de Oliveira afirmou que a primeira fase será de diagnóstico, com acesso a documentos, senhas, relatórios, dados financeiros, contratos, sistemas de bilhetagem, garagens e informações operacionais. Diretores do consórcio foram afastados das funções de gestão para preservar dados e garantir o controle das informações.
Ao fim do processo, a Prefeitura poderá devolver a gestão ao Consórcio Guaicurus, aplicar sanções contratuais ou abrir caminho para a caducidade da concessão, que significaria o encerramento do contrato.
