06/03/2026
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China importará 430 mil barris de óleo venezuelano diariamente

Impacto da Intervenção dos EUA na Indústria do Petróleo Venezuelano

A recente invasão dos Estados Unidos à Venezuela e a prisão do presidente Nicolás Maduro levantam dúvidas sobre o futuro da exportação de petróleo do país. A Venezuela costumava enviar cerca de 430 mil barris de petróleo diariamente para a China. Dados da Argus, informações de mercado e análises de rastreamento apontam que essa situação pode mudar drasticamente.

Gustavo Vasquez, especialista em precificação de petróleo, destaca que a Venezuela ainda não está completamente integrada aos mercados globais, influenciada por sanções impostas pelos EUA. A maior parte do petróleo venezuelano estava sendo exportada para refinarias independentes na China. Contudo, essa quantidade representa menos de 20% da capacidade total de processamento desse país.

Apesar das sanções e do grande desconto no preço do petróleo venezuelano (entre 11 a 12 dólares por barril), as refinarias estatais da China não estão comprando esse produto, e a demanda tem se concentrado principalmente em pequenas refinarias. A China, por sua vez, manifestou forte descontentamento com a prisão de Maduro, em parte porque possui investimentos significativos na indústria de petróleo da Venezuela. Além disso, o país sul-americano ainda deve cerca de 12 bilhões de dólares à China em acordos de empréstimos vinculados ao petróleo.

Vasquez esclarece que, embora não haja uma escassez global de petróleo, o tipo específico de petróleo venezuelano chamado Merey-16, que é pesado e com alto teor de enxofre, pode se tornar escasso. Este petróleo é usado principalmente na produção de betume, que é importante para pavimentação e é destinado à província de Shandong, na China. A interrupção das importações de petróleo da Venezuela pode significar uma diminuição na produção de betume a partir de março.

Desafios na Infraestrutura do Petróleo Venezuelano

As dificuldades na infraestrutura de petróleo da Venezuela são significativas. Para retornar à capacidade de produção anterior, que era de cerca de 3 milhões de barris por dia, seriam necessários investimentos na ordem de centenas de bilhões de dólares. Vasquez menciona que muitos gasodutos estão sem uso, e houve tentativas frustradas de restabelecer um gasoduto para a Colômbia, mesmo com apoio político de ambos os países.

As refinarias enfrentam desafios ainda maiores. A refinaria de Cardón, por exemplo, sofreu um apagão significativo no último ano, mesmo com a produção reduzida. Além disso, a Venezuela enfrentou uma “fuga de cérebros” desde a década de 1990, com muitos profissionais da estatal de petróleo abandonando o país em busca de melhores oportunidades. Essa perda de expertise agrava ainda mais os problemas do setor.

Logística de Transporte de Petróleo

A intervenção dos EUA também afetará a logística de transporte do petróleo. Atualmente, as exportações venezuelanas são transportadas principalmente por uma chamada “frota sombra”, que consiste em navios envolvidos em práticas comerciais ilícitas, desde a imposição das sanções. Esses navios operam fora do mercado convencional, que normalmente inclui transporte de petróleo de países como Brasil, Guiana, Argentina e Colômbia.

No entanto, o afretamento de navios petroleiros de grande porte no mercado, excluindo a Venezuela, mostra-se estável após a intervenção militar, com a taxa para transporte entre o Brasil e a China atingindo o menor nível em cinco meses, cerca de 2,90 dólares por barril.

A Argus alerta que eventuais interrupções nas importações de nafta da Rússia para a Venezuela, utilizada na mistura do petróleo pesado, podem afetar a logística de frete nessa rota específica. Atualmente, a taxa para transporte de produtos refinados do Báltico russo ao Caribe está em 69,17 dólares por tonelada, o nível mais alto dos últimos 20 meses.

Esse cenário complexo traz incertezas não apenas para a indústria de petróleo da Venezuela, mas também para as economias que dependem dela.