O que este artigo aborda:
- Estratégia de Terceirização e a Ascensão da China no Cenário Tecnológico
- A Curva do Sorriso
- A Revolução Chinesa na Indústria
- A Perda de Habilidades e a Dependência
- Desafios para a Reindustrialização
- Conclusão
Estratégia de Terceirização e a Ascensão da China no Cenário Tecnológico
Nos últimos 30 anos, a estratégia de terceirização, que prometia lucros limpos para os países ocidentais, se transformou em uma armadilha geopolítica. A China hoje lidera a maioria das inovações tecnológicas, dominando 57 das 64 tecnologias de ponta, enquanto as nações ocidentais, especialmente os Estados Unidos, se esforçam para reverter a desindustrialização e retomar sua competitividade.
A Curva do Sorriso
Um conceito importante nessa discussão é a “curva do sorriso”, que representa como o valor agregado se distribui nas etapas de produção de um produto, especialmente em setores de tecnologia. O conceito foi popularizado na década de 1990 por Stan Shih, fundador da Acer. Ele observou que as etapas iniciais de pesquisa, design e marketing têm maior valor, enquanto a manufatura, que é intensiva em mão de obra, captura um valor menor.
Na prática, as empresas americanas, especialmente na área de tecnologia, optaram por terceirizar a produção para a China. Com isso, esperavam focar em atividades mais lucrativas, como design e desenvolvimento, enquanto deixavam a fabricação na China. Esse modelo funcionou por um tempo, mas com a perda gradativa de fábricas nos EUA, ficou claro que a manufatura é essencial para a inovação. O fechamento de fábricas significou também o fechamento de portas para o aprendizado e a inovação que ocorrem na linha de produção.
A Revolução Chinesa na Indústria
Nos últimos anos, a China não só se concentrou em fabricar produtos, mas também em desenvolver todos os componentes necessários, como chips e baterias. Essa estratégia, apoiada por subsídios e políticas industriais, tornou a competição com os EUA quase impossível em setores como energia solar e veículos elétricos.
Em resposta, o governo americano implementou tarifas e outras medidas protecionistas para tentar trazer de volta a manufatura para seu território, em um movimento conhecido como “re-shoring”. Essa mudança reflete uma nova percepção de que depender da produção chinesa pode ser arriscado.
A Perda de Habilidades e a Dependência
A dependência do modelo de produção terceirizada levou os EUA a uma situação crítica, onde muitos acreditam que o país perdeu habilidades essenciais para a sua economia. As preocupações com a segurança nacional também crescem em meio a esse cenário, pois a manufatura é vista como fundamental para a soberania e a autossuficiência de uma nação.
Enquanto a China continuou a investir massivamente em educação, ciência e tecnologia, empresas chinesas de celulares e veículos elétricos se tornaram competitivas e até superaram seus equivalentes ocidentais em qualidade e preço. Os produtos chineses, como os smartphones da Xiaomi e Huawei, são um exemplo claro desse avanço.
Desafios para a Reindustrialização
A reindustrialização dos Estados Unidos enfrenta desafios significativos. Não basta apenas trazer as fábricas de volta; é necessário também recuperar as habilidades que foram perdidas ao longo das últimas décadas. Essa tarefa é complicada por uma economia globalizada e pela supervalorização do dólar, que dificulta a competitividade das empresas americanas.
Um estudo do Instituto Australiano de Política Estratégica revela que, entre 2003 e 2007, os EUA lideravam em 60 das 64 principais tecnologias. Contudo, entre 2019 e 2023, essa posição foi invertida, com a China assumindo a liderança em 57 tecnologias.
Conclusão
A trajetória da China ilustra que a “curva do sorriso” não é apenas um conceito teórico, mas uma realidade prática que teve um impacto profundo nas dinâmicas econômicas globais. Os países desenvolvidos, ao transferirem suas capacidades industriais, não apenas perderam empregos, mas também comprometeram seu futuro tecnológico e econômico.
Atualmente, enquanto os EUA tentam reconstruir seu setor industrial, a China se consolida como uma potência que não apenas produz, mas que também define os termos do comércio e da tecnologia mundial. O aprendizado com esta transição é claro: quem domina a produção e a fabricação, frequentemente, pode também moldar o futuro econômico.