O embaixador Celso Amorim, assessor especial do Presidente Lula para assuntos internacionais e diplomata com vasta experiência, manifestou preocupação sobre as relações internacionais após o governo dos Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, ter bombardeado a Venezuela e tentado sequestrar o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores.
Amorim destacou que a estratégia dos EUA pode ter como objetivo afastar a influência da China nas relações comerciais da América do Sul. No entanto, ele afirmou que o Brasil não aceitará imposições externas. O embaixador também reconheceu que o cenário atual é de transformações profundas e que as consequências dessas mudanças ainda são incertas.
O diplomata defende que o caminho para resolver a crise criada pelas ações dos EUA passa pelo diálogo e pela pressão política. Ele acredita que, se houver abertura para conversas, a diplomacia pode desempenhar um papel fundamental.
Além disso, Amorim comentou que o impacto da ofensiva na Venezuela também se faz sentir nos Estados Unidos, onde a população está insatisfeita com os gastos externos, especialmente em um momento de aumento nas despesas internas. Com eleições marcadas para o segundo semestre, essa insatisfação pode ter repercussões sobre o governo Trump.
Amorim foi questionado sobre se estamos vivendo uma nova ordem mundial. Ele enfatizou que acreditar nisso seria otimista demais, pois a antiga ordem, que já enfrentava desafios, está sendo ignorada. O embaixador expressou incertezas sobre como será construída uma nova ordem, sugerindo que não pode ser baseada apenas na força.
Referindo-se à ONU, Amorim destacou as limitações do organismo, que frequentemente é incapaz de agir contra decisões dos membros permanentes. Ele comentou que o importante é discutir, mesmo que a organização não tenha poder decisório pleno. Ele expressou preocupações sobre a atual situação mundial, que pode ser vista como um momento crítico e desafiador.
Sobre formas diplomáticas de atuação em crises tão extremas, Amorim declarou que, embora não seja possível desfazer ações já tomadas, é viável tentar evitar que a situação se agrave. Ele ressaltou a necessidade de diálogo entre todos os envolvidos, o que exige disposição e colaboração.
Em relação à divisão da região, o embaixador não considera realista pensar em medidas conjuntas, mas acredita na importância de unir vozes para expressar oposição às ações dos EUA, como já foi feito por alguns países. Contudo, ele reconhece que o impacto dessas ações ainda é incerto.
Amorim também abordou a posição de Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, que se opõe à venda de petróleo da Venezuela para a China. Ele insistiu que o Brasil não aceitará restrições de comércio com a China, que continua a ser seu principal parceiro comercial. O embaixador citou exemplos de como a China está se envolvendo em investimentos no Brasil, como a entrada da BYD, preenchendo lacunas deixadas por outras empresas.
Por fim, sobre o BRICS e sua atuação na crise, Amorim expressou que o bloco pode contribuir a médio e longo prazo, ao construir alternativas de cooperação. Ele acredita que o momento atual está causando tensões significativas até mesmo dentro dos Estados Unidos.
