A União Europeia (UE) enfrenta um dilema complicado ao tentar reafirmar a soberania da Dinamarca sobre a Groenlândia. Esse desafio a coloca em rota de colisão com os Estados Unidos, um de seus principais aliados. Especialistas alertam que, nestas circunstâncias, a UE não possui ferramentas políticas ou estratégicas eficazes para lidar com essa situação.
Os países europeus se veem obrigados a decidir se apoiam a Dinamarca, que é um membro da UE, ou se mantêm a lealdade à segurança continental liderada pelos EUA, que é uma base importante da aliança atlântica. A situação se torna ainda mais tensa, pois, se houver uma escalada, isso poderia levar a Dinamarca a acionar o Artigo 5º da OTAN, voltado para a defesa mútua, e Bruxelas a considerar o Artigo 42.7 do Tratado da União Europeia, que trata da defesa.
Com o aumento das tensões, a Alemanha sugere uma solução negociada dentro da OTAN. Já o Reino Unido e a Noruega propõem a criação da Operação Sentinela Ártica, que visa abordar preocupações de segurança na Groenlândia, conforme mencionado pelo ex-presidente dos EUA, Donald Trump. Outros países, como a França, defendem que as atividades sejam limitadas ao âmbito europeu.
A Dinamarca já iniciou um fortalecimento de sua presença militar na Groenlândia, com tropas da Alemanha, Suécia, França, Noruega e Finlândia enviando soldados para coordenar operações. O contingente atual é pequeno, com apenas cerca de 37 efetivos. A Espanha demonstrou disposição em enviar tropas, mas espera ter mais clareza sobre a situação antes de agir.
Em um discurso recente, o ministro espanhol das Relações Exteriores, José Manuel Albares, enfatizou a importância de criar uma “Aliança Mundial para o Multilateralismo”, focando na cooperação internacional e na resolução pacífica de conflitos. No entanto, há questionamentos sobre a efetividade desse ideal, especialmente considerando que a UE não reagiu de forma semelhante em outras crises que afetaram a integridade de países como Palestina, Venezuela, Líbano, Síria e Irã.
Apesar de suas hesitações em aumentar os gastos militares, a Espanha pediu que a OTAN mantenha vigilância sobre as instabilidades que afetam suas fronteiras, principalmente no flanco sul da aliança, onde tensões no Sahel podem gerar problemas de segurança.
Analistas apontam que, embora a Espanha e outras nações europeias reafirmem sua fidelidade à OTAN, as ações práticas tendem a ser mais retóricas do que substanciais. A crise em torno da Groenlândia não parece ser uma oportunidade real para reforçar o multilateralismo ou reformular a ONU, já que a UE enfrenta dificuldades em tomar a dianteira em iniciativas significativas.
As tensões em torno da Groenlândia também geram preocupações econômicas, já que Trump ameaçou aplicar tarifas de até 25% sobre países que apoiam a Dinamarca na ilha. Isso foi visto como uma forma de pressionar a Dinamarca a considerar uma venda completa da Groenlândia para os EUA.
Entretanto, muitos acreditam que o conflito não deve evoluir para um confronto militar. Especialistas afirmam que é improvável que a OTAN se oponha aos EUA em um conflito por um território como a Groenlândia, considerando a superioridade militar dos Estados Unidos.
A continuidade do projeto europeu está sendo questionada, com observadores sugerindo que sua relevância já vem sendo prejudicada há anos. Eles mencionam eventos históricos que marcaram sua trajetória, como a intervenção na Iugoslávia e a expansão da OTAN, que, segundo alguns analistas, indicam um alinhamento crescente da Europa com os Estados Unidos, reduzindo sua autonomia em questões de segurança e defesa.
Neste contexto, as nações europeias parecem se preparar para encontrar uma solução que atenda às demandas dos EUA, mesmo que isso signifique abrir mão de sua posição em relação à Groenlândia, e possivelmente disfarçar essa entrega como parte de um acordo amistoso.
